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Ademário Costa é cientista social e coordenador de gabinete do deputado federal Jorge Solla e falou ao CNB/BA sobre o Dia da Consciência Negra e o Novembro Negro

O Dia da Consciência Negra, celebrado anualmente em 20 de novembro, simboliza a resistência e a reafirmação da cultura afro-brasileira no país, além de reivindicar a morte de Zumbi dos Palmares, que foi um dos líderes do Quilombo dos Palmares e importante figura de resistência. Para a capital baiana, a data é ainda mais significativa, pois a cidade de Salvador é considerada o berço da cultura preta no país.

Em entrevista exclusiva ao CNB/BA, Ademário Costa, cientista social e coordenador de gabinete do deputado federal Jorge Solla (PT-BA), destacou que o Dia da Consciência Negra é um marco da luta antirracista no Brasil: “A data destaca as pautas cruciais da nossa luta, como as desigualdades, intolerância e violência; a necessidade de políticas públicas de inclusão social, política e econômica; o respeito às religiões de matrizes africanas; a valorização da cultura e estética negras; o combate à violência racial e mortes de pessoas negras”, disse.

“O 20 de Novembro tem a missão de promover o debate e a visibilidade sobre a história, luta e direitos do povo negro; a importância da paridade racial nos espaços de poder e decisão política, da justiça racial, do empoderamento do povo negro, das políticas públicas de inclusão e reparação social. E na Bahia, estado mais negro fora da África, berço e centro desse debate, é o dia de ampliar as lentes sobre as desigualdades sociais oriundas do racismo e pensar uma proposta de justiça racial nos espaços de decisão e de construção política para todo o Brasil”, completou o cientista social.

No mês de novembro, a capital baiana realizou e produziu mais de 20 eventos por e para pessoas negras, com a presença de artistas nacionais e internacionais na cidade. Para Ademário, a cultura é indispensável no combate ao racismo em Salvador e no país, por promover inclusão, visibilidade, reconhecimento e pela geração de renda e emprego para pessoas negras.

“Por ser a capital mais negra da América Latina, com 80% da população descendente de africanos, Salvador acaba sendo uma vitrine da cultura negra e da luta contra o racismo. O movimento cultural do Novembro Negro é importante sobre vários aspectos, entre eles ampliar o debate e mover a economia. Mas além do entretenimento, são muito importantes os projetos, programas e ações que promovam o empreendedorismo negro, a inclusão econômica de pessoas pretas e o debate sobre segurança, educação, esportes, habitação, entre outros”, pontuou.

“Precisamos pensar cada vez em uma agenda no Novembro Negro com ações concretas de reparação, oportunidades, combate à discriminação e violência, garantia de direitos e muito mais”, adicionou.

Nascido em Salvador, no bairro de São Cristóvão, que é o sexto bairro com a maior população de negros no município, com cerca de 84%, iniciou sua trajetória no movimento estudantil secundarista, em que participou do grêmio do IFBA e UMMES. Foi dirigente do DCE-UFBA e da União Nacional dos Estudantes (UNE), e foi um dos fundadores do Coletivo de Negros e Negras das Universidades da Bahia e atualmente é coordenador de Relações Institucionais do Movimento Negro Unificado – MNU e do Afoxé Filhos de Gandhy.

Além disso, o cientista social já foi membro do coletivo estadual da JPT; presidente do Diretório do PT de Salvador; secretário de Combate ao Racismo do PT Bahia; chefe de gabinete da Secretaria de Administração da Prefeitura de Camaçari e assessor de mandatos de deputados estaduais do partido.

Confira abaixo a entrevista completa:

CNB/BA – Como enxerga que a celebração dessa data impacta na conscientização e educação social acerca das relações de poder e da hierarquia racial no estado?

Ademário Costa – Por ser uma data que faz menção à morte de um dos maiores líderes da luta contra a escravidão no Brasil, Zumbi dos Palmares, ela já tem esse papel de conscientizar, de ser um momento culminante da luta contra o racismo, de chamar à atenção, não deixar esquecer, educar, promover a reflexão e romper com as estruturas racistas mais profundas. Essa é a sua função. Seu objetivo é quebrar paradigmas, destacar que somos uma nação formada por uma grande maioria negra, que deu seu sangue para a sua construção, e que precisa, deve e tem o direito de ser reconhecida, respeitada e incluída em todos os espaços da sociedade. E é de extrema importância para pautar temas como a política de drogas e o encarceramento, que são mecanismos de manutenção da hierarquia racial na nossa sociedade de hoje, pois são formas de marginalizar e excluir os negros, de promover o racismo. Então, ela traz para o centro do debate pautas centrais da estrutura racista da sociedade brasileira, por isso é tão importante. Quanto mais damos visibilidade, combatemos e lutamos por direitos, mas avançamos neste aspecto. E o 20 de Novembro contribui para isso.

CNB/BA – Como associações e instituições são capazes de promover um diálogo de conscientização e informação para a sociedade?

Ademário Costa – Esses espaços são fundamentais na conscientização da população sobre a história, identidade, pertencimento e direitos do povo negro. Eles são a base da construção do debate e da construção de uma visão social sem preconceitos, reparadora e igualitária, capaz de criar uma sociedade mais justa, sem desigualdades, que promova o desenvolvimento social e econômico de forma horizontal.

Um exemplo disso são as universidades, que têm competência de enfrentar o racismo de forma aprofundada, qualificada e diversificada, pois lida com vários públicos. Elas formam indivíduos conscientes, antirracistas e preparados para o enfrentamento às estruturas antirracistas nos diversos espaços da sociedade. Então, o fortalecimento de espaços de formação e informação é de extrema importância para a construção da sociedade sem racismo que queremos e precisamos.

CNB/BA – No seu ponto de vista, de que modo a construção de pautas e conteúdos de sensibilização e diálogo como este, promovido pelo CNB/BA, propulsiona a visibilidade dessas discussões?

Ademário Costa – A comunicação é sem dúvida uma das mais eficientes ferramentas de construção e formação, algo muito importante para o combate ao racismo, pois lidamos com ideias e estereótipos preconceituosos. Portanto, a existência de espaços para informar, orientar, combater é de extrema relevância. O CNB está de parabéns por possibilitar esse diálogo, fazendo com o que as pessoas reflitam, entendam o que precisa ser modificado e se possam se considerar parte dessa mudança, pois uma sociedade justa é resultado de uma população consciente, informada, educada e operante na direção das mudanças necessárias.

CNB/BA – Como as políticas públicas podem ser aprimoradas para atuarem no combate ao racismo estrutural? Quais iniciativas você considera eficazes?

Ademário Costa – Uma das formas mais eficazes é promover a paridade racial em todos os espaços da sociedade. Paridade nos poderes legislativos, executivo e judiciário, paridade racial nas universidades, nas direções dos partidos, nas diretorias e presidências de empresas e instituições públicas dos diversos setores, paridade nos veículos de comunicação, na produção artística, na educação, no esporte. Um exemplo importante de paridade racial é poder garantir que as nossas crianças negras se vejam na cor de bonecas e em desenhos animados. Isso valoriza e rompe estruturas racistas de forma eficaz e já possibilita uma geração sem racismo.

Além disso, precisamos de mais políticas públicas de combate ao racismo, de uma política de drogas e do abolicionismo penal, que marginaliza e exclui na sua grande maioria jovens negros. Para isso, precisamos que espaços e organizações políticas e sociais sejam poderosos mecanismos de empoderamento do povo negro. Só assim vamos erradicar o racismo estrutural e promover igualdade de direitos e justiça racial.

Fonte: Assessoria de comunicação do CNB/BA.

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